Um de meus contos
Andava pela avenida principal e de lá podia ver o mar; era mais uma de mihna tardes alienadas: as ondas vinham voluptuosamente beijar a areia da praia. Eu não via o mundo se movimentar a minha volta, estava completamente imersa dentro de mim mesma. Minha distração era tamanha que não vi uma criança chorando sentada em um banco do calçadão onde acabara de sentar-me. O prando soou tão alto que de repente acordei do meu sonho paralelo.
Toquei-lhe o rosto e perguntei-lhe o por quê do seu choro e a muito custo falou a palavra “ma-mãe” em meio a lágrimas e soluços. Eu não sabia o que fazer, mas mesmo assim segurei-lhe a mão e disse-lhe para ficar calma pois logo encontraríamos sua mãezinha, entretanto ela prosseguiu e chorou por muito tempo.
Caminhamos de mãos dadas até uma barraca onde coloquei-lhe sobre uma das mesas e comprei-lhe água, pois talvez assim se acalmasse, mas isso não aconteceu. Com muito esforço a fiz descrever as roupas e a fisionomia da mãe, então a coloquei em meus braços e nós saímos a procura da tal senhora.
Quando percorríamos a orla pela segunda vez seguida já era quase noite e ainda não haviamos a encontrado. A menina suavemente deixou sua cabeça cair-se sobre meu ombro, sua triste face parecia uma tela pintada à mãos de anjo, ela quase adormecera, mas repentinamente a infante recomeçou a chorar enquanto passávamos fronte a uma mulher estirada no chão com uma bala cravada no peito. O choro daquela criança foi choro desesperado, alucinado; pobre criança, tão pequena já era orfã de mãe.
Minha primeira reação, que diga-sse de passagem demorou muito, foi soltar a menina, que correu freneticamente àquele corpo de mulher que não mais se movia. Fui atrás dela e procurei na bolsa daquela mulher algum indício de onde estaria a sua família, não havia nada interessante além de uma identidade e um cartão de prostíbulo. Perguntei aos guardas que ali chegaram se a conheciam, e eles disseram com tom de desprezo:
-Todas elas acabam assim.
Não havia dúvidas, a realidade era aquela mesma, triste e cruel. Beatriz, esse era o nome da criaturinha que enternecera meu coração, foi levada ao juizado de menores, a coitada só tinha a mãe, e estava, a partir daquele dia, completamente só.
Ao chegar em casa tomei uma ducha quente e fui direto para a cama. As recordações daquele dia me vinham a mente como um filme interminável: o choro, o transtorno, o desespero, a morte, e por fim a solidão pela qual aquela criança passaria. Todas as imagens afloravam da minha mente como um longametragem de tristezas e infelicidades cuja personagem principal era aquela criancinha pueril. Me assutei a me ver espectadora de mim mesma e testemunha dos meus próprios atos. Uma importante decisão devia ser tomada, por isso exitei muito antes de decidir-me, essa poderia ser, talvez, a mais importante resolução da minha vida.
Trinta anos se passaram, ando pela avenida principal e daqui posso ver o mar, é mais uma de minhas tardes, dessa vez proveitosa. Vejo minha netinha Mariana, filha de minha querida Beatriz, brincar com as ondas que meigamente abraçam a areia da praia.
Esse contos está presente na 4ª Antologia de Autores Contemporâneos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores
